sábado, 12 de fevereiro de 2011

Soy loco por ti, América!

Por Jorge Bem Amado

É dia de julgamento. Chegaram todos os juízes. Formados nas melhores universidades da América Latina, Estados Unidos e Europa. Conhecidos também como acadêmicos eurocêntricos. Trouxeram consigo vários pressupostos aprendido numa ciência social cartesiana. Os réus começam a entrar, gradativamente. Alguns barbudos, outros índios, mulheres, quilombolas, pescadores, capoeiristas, trabalhadores e trabalhadoras. Quem será julgado pelas Universidades será a esquerda da América Latina. Primeira acusação: populista. Um juiz começa a argumentar acusando nós de  personalistas. Dizendo que nossas democracias são imperfeitas. Que nossas lideranças têm a mania de querer saber o que é melhor para nossa gente. Cita um discurso emblemático do presidente democraticamente eleito da Venezuela, que falou: “vocês elegeram um governo, que não será o governo de Chávez, porque Chávez é o povo”. Segunda acusação: marxista. Outro juiz argumenta que Marx representa o comunismo europeu, totalitário, e que não entende por que esses latino-americanos continuam a cantar a Internacional Socialista, a usar aquelas camisas vermelhas com uma foice e martelo, ou uma estrela. Terceira acusação: messiânicos. O mesmo juiz questiona que um dos pressupostos da ciência política eurocêntrica é o Estado laico, então por que essa fé toda? Porque esses padres, bispos, irmãs e irmãos ficam se envolvendo nessas greves, reuniões clandestinas, ocupações de terra, ou nessa política?

Os subalternos não podem falar. Um a um são taxados, criando-se um grande jogo, parafraseando Edmund Leach, chamo de coleção de borboletas azuis deformadas.  Não se pensa por que elas não conseguem voar, nem sequer por que são borboletas. A única coisa que eles fazem é classificar. Um barbudo é chamado de cristão-comunista. Um índio de populista, e assim por diante.

Porque não são populistas Silvio Berlusconi e Nicolas Sarkozy? Por que somente nós somos os deformados? Por que colocar Che Guevara e Salvador Allende no mesmo balaio que Josef Stalin e Nicolae Ceausescu? O que nós fizemos para que sejamos tão culpados pelos crimes ocorridos no Leste Europeu? E se foi o comunismo em si que praticou tal barbaridade, por que o capitalismo não é responsabilizado pelos acontecimentos que se passaram em Auschwitz?

A Europa inventou e matou o comunismo. Mas só o seu comunismo e não o nosso. Porque nós, latino-americanos seguimos o rumo de nossa própria história. Nela, esses “padres comunistas”, esses “barbudos”, essas mulheres indígenas, lutaram contra as injustiças, a favor da liberdade, com e para o nosso povo. Se querem nos chamar de atrasados, de primitivos que o façam. Mas não o façam com esse ar de intelectualidade. Não o façam se julgando imparciais e coretos. Façam assumindo que são metropolitanos ou colonizados!

O que eu quis escrever aqui não é nossa defesa. Nós não precisamos nos defender desse tipo de ataques, pois continuamos a caminhar com nossas próprias pernas. Várias vidas estão sendo dedicadas às nossas lutas nesse momento. Faço aqui uma simples denúncia. Que enquanto se escreve os livros, artigos, dissertações e teses nos diminuindo, nós estamos lutando, sendo atacados de todos os lados. Por matérias tendenciosas, por juízes corruptos, pelos assassinos, pistoleiros ou policiais. E a academia tem a sua parte de culpa, na medida em que calam as nossas vozes, nos classificam e nos incriminam. Citando o poeta Fernando Pessoa, “Arre, estou farto de semi-deuses! Onde é que há gente nesse mundo?”. E hasta la victoria, siempre!

1 comentário:

  1. .como diz nosso tom zé: temos que sair do bate-estaca da escola!! valeu, galera!!

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