quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

À elas, por elas... sempre elas...

Por Bicho Maluco Beleza

foto de Ana Bacalhau, vocalista da banda Deolinda 

Já há um tempo nessa cidade estrangeira me recordo de quando cheguei... frio, desafios, novidade, o sabor do desconhecido...

Muitas coisas poderia falar, experiências não faltam, algumas a comemorar, outras a lamentar, a boa e velha lógica da vida. Mas decido começar por uma marcante diferença para um jovem heterossexual solteiro das terras misturadas e quentes da América do Sul: o trato com as mulheres. Nesse caso, obviamente, com as mulheres portuguesas.

Alguma convivência em regiões turísticas brasileiras já tinham fornecido alguma matéria para elaboração de uma opinião sobre as protagonistas desse relato. A idéia que tinha era de uma personalidade arredia, algo pudica e melindrosa... por mais ridículo que essa impressão generalizante seja, e é, não há como negar que ela existia. E agora? O que a observação participante mostrou?

Bom, em primeiro lugar que qualquer generalização é burra e não corresponde à beleza da realidade diversa da experiência humana. Em segundo, que existe sim uma tendência identificável e que ela dá alguma informação sobre um possível contato intercultural de primeiro grau. E qual o conteúdo gerado por essa pesquisa-ação? 

Difícil resumir as variadas impressões resultantes de uns bons meses de vivência coimbrã, mas já que o objetivo aqui é dar a conhecer o substrato da experiência acerca desse tradicional contexto estudantil lusitano, aí vai algo de íntimo e pessoal, porém não menos “científico”.

De início houve um imediato estranhamento. A comum tropical troca de olhares inter-gêneros inexiste. O que isso quer dizer? Difícil saber, ao mais precipitado pode significar uma baixa de auto-estima, algo como, o pouco do poder sedutor que a figura física gerava se foi... Depois, insistindo um pouco e acreditando na máxima de que “brasileiro não desiste nunca”, toma-se fôlego e vai-se em frente e vê-se que essa repentina capa invisível também cobre outros infelizes imigrantes de sua espécie. 

Aí surgem as hipóteses para a explicação da razão por trás da tragédia: há algum feitiço no meio do Atlântico que tira os atrativos de jovens tupiniquins descobridores do além-mar; algo no jeito de andar diz de imediato a naturalidade dando vez a alguma espécie de rejeição xenófoba; a policia portuguesa prende e tortura todos aqueles que manifestem atração sexual, ou afetiva, vá lá, afinal ainda existe algo de romântico na terra do samba e do carnaval.

De posse das hipóteses parte-se para o trabalho de campo. E ao fim de um árduo labor movido pela curiosidade científica chega-se à seguinte tese: as propriedades sedutoras não se esvaem com a travessia e não é que a sociabilidade seja pior, é apenas diferente. Explico-me. Uma observação apurada demonstra que entre os autóctones também são raras as manifestações flagrantes de atração e desejo arrebatadas. A coisa se desenrola sutilmente, assim no estilo quem desdenha quer comprar..., aí, como que de repente, duas pessoas antes presentes numa reunião social somem. Para onde foram? Seqüestro relâmpago? Tranqüilizem-se, trata-se de um pais desenvolvido, na verdade os ausentes se encontram unidos pela milenar conjunção humana tantas vezes maldita por moralismos religiosos retrógados.

Conclusão feliz esta que me remete a uma famosa poesia do meu Brasil continental com a qual me despeço nessa primeira intervenção:


O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano...

É debaixo dos pano
Que a gente não tem medo
Pode guardar segredo
De tudo que se vê
É debaixo dos pano
Que a gente fala do fulano
E diz o que convém...

É debaixo dos pano
Que eu me afogo
Que eu me dano
Sem perder o bem...

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano...

É debaixo dos pano
Que a gente esconde tudo
E não se fica mudo
E tudo quer fazer
É debaixo dos pano
Que a gente comete um engano
Sem ninguém saber...

É debaixo dos pano
Que a gente
Entra pelo cano
Sem ninguém ver...

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano...

É debaixo dos pano
Que a gente esconde tudo
E não se fica mudo
E tudo quer fazer
É debaixo dos pano
Que a gente comete um engano
Sem ninguém saber...

É debaixo dos pano
Que a gente
Entra pelo cano
Sem ninguém ver...


E viva a lusofonia!!!



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