sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Manel e o Papel Alumínio


Por Ó Fadista


Uma das coisas que mais me incomodam aqui em Portugal é a ausência de portugueses. Sim, ainda são por aqui a maioria, mas tirando o afável Seu Pereira da loja de tabacos e alguns professores, quando resolvem fugir do monólogo para o diálogo, são raras as vezes quando me é dirigida alguma pergunta ao som do divertido sotaque lusitano. Os brasileiros por aqui são tantos que, se não fizermos um real esforço de dessocialização tupiniquim, continuamos a viver entre o Equador e o Trópico de Capricórnio.  Com o diferencial de que aqui a distância entre Pernambuco e Minas Gerais, Amazonas e Bahia é vencida com 10 minutos de caminhada de uma casa até outra. Uma amiga piauiense me disse que foi preciso sair do Brasil para conhecê-lo, já que só aqui é que pôde ter contato com outras culturas isoladas por nossas dimensões continentais. O fato é que o círculo de amizades para muitos de nós por aqui, se restringe àqueles que têm no armário uma camisa amarela com cinco estrelas no peito.

Pois bem, depois de ano sem conseguir me aproximar de nenhum tuga, apareceu finalmente aquela que me parecia a oportunidade de ouro, o Manel. Um gajo com seus 40 e poucos anos, mas com aparência e trejeito de menos, excepcionalmente aberto e sorridente. Nos conhecemos no comboio vindo do Porto, aquela hora e meia de viagem até Coimbra foi suficiente para sair das impressões sobre a possibilidade de chuva no fim da tarde para concordarmos veementes sobre nossas críticas às atitudes de cada povo. Eu, falando sobre como os brasileiros são por vezes mais preconceituosos que os próprios portugueses, e ele sobre como o imaginário lusitano enfrenta dificuldades em aceitar o que chamou de “ este processo soberanização de sua maior colônia”. Para me assegurar de que não se tratava de algum tipo de investida sexual, incluí logo minha namorada no assunto e ele ficou contente em dizer que sua atual namorada era também brasileira, o que fez o papo virar para aquelas típicas piadas machistas de mesa de buteco. Pronto, foi amizade à primeira vista, pá. Trocamos os números de telemóvel e deixamos agendado um encontro em sua casa, para quando sua namorada chegasse do Brasil. Eu, como típico brasileiro que sou, pensei que nunca mais nos falaríamos e fiquei surpreso quando li a mensagem algumas semanas depois convidando a mim e a minha namorada para um churrasco em sua casa. Ela, que também não teve muito sucesso com amizades internacionais por aqui, concordou que era uma boa oportunidade para conhecermos “pessoas diferentes”.

Numa tarde de domingo ensolarada, lá fomos. Ele foi enfático para que não levasse nada, que já tinha tudo preparado. Eu, como típico boêmio que sou, me assegurei em levar um baseadinho e 2 garrafas de vinho alentejano para o caso em que me fosse oferecido apenas sumo de laranja e uma tacinha de vinho do porto.  Contentíssimo com a orgia de entremeadas, chouriços e queijos de ovelha, esperei o fim da primeira garrafa para insinuar sobre os efeitos benéficos da cannabis, sobre a manipulação da mídia em torno de sua proibição no Brasil, enfim, aquele típico papo de maconheiro que não vê problema nenhum em dar um tapinha de vez em quando. Os anfitriões disseram que já tinham fumado por algum tempo, mas que agora se limitavam a um vinho de vez em quando e a uns cigarros indianos, o que interpretei como um aval para seguir adiante com minhas intenções.  Enquanto enrolava meu baseado misturado com tabaco, perguntei-lhe se os tais cigarros da Índia eram entorpecentes. Ele disse não saber o que era entorpecente e, após minha explicação de que seria algo que alterasse a percepção da mente, assegurou-me que não, que servia apenas para um certo relaxamento, reposta que encerrou logo minha curiosidade e me fez apressar o processo de enrolamento. Enquanto fumávamos um “perna de grilo”, meu anfitrião preparava umas formas estranhas com folhas de papel alumínio, algo parecido com um canudo e outra coisa que se assemelhava a uma calha. Com o tetraidrocanabinol começando a se propagar no sangue, peguei o violão e comecei a dedilhar uns acordes bossanovísticos despretensiosos, quando a calha de alumínio e o canudo aparecem fumegantes entre meu rosto e o violão. Manel insistiu para que eu inalasse a fumaça, que aquilo era o cigarro que ele queria que eu experimentasse. Dei um trago e observei minha namorada repetir o processo por três vezes, enquanto os acordes pareciam sair cada vez mais fáceis. Novas e fantásticas sonoridades pareciam brotar de meus dedos ao mesmo tempo em que reparava na maneira estranha como nosso novo casal amigo fumava aquele cigarro de papel alumínio. Imediatamente comecei a improvisar e parecia que tocava um solo de Eric Clapton nos tempos de Cream, que estava compondo um tema de Chet Baker. Minha namorada me mirava e sorria atônita com a situação. Aquilo não entorpecia tanto quanto rapadura não adoça café. Apesar da preocupação por termos sido coagidos a fumar algo que não sabíamos o que era, meus dedos criavam autonomia e se exibiam com um virtuosismo impressionante, quando dei por mim estava cantando fados no tom original da Amália.  O casal continuava frenético em seu ritual de fumaça e papel alumínio, parando de tempos em tempos para cantar e aplaudir minhas improvisações e composições inspiradíssimas. Passaram-se minutos, ou horas, até que Manel caiu pálido no sofá e só conseguir se levantar após sua mulher colocar não sei quantos comprimidos em sua boca.

Mesmo com toda nossa insistência, nossos novos ex amigos não revelaram de maneira nenhuma o nome da fumaça no papel alumínio que nos fizeram fumar. O que era, eu só desconfio, mas apesar da bela experiência intercultural, achei melhor continuar com um baseadinho em meio a uma roda de pernambucanos, baianos, mineiros, paulistas, paranaenses, cariocas, ...

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